sexta-feira, 5 de maio de 2017

O dia em que o WhatsApp parou


Aconteceu no final de uma tarde de outono abafada, o sol já estava se pondo e os pássaros já se recolhiam para os seus ninhos. Homens e mulheres nesse horário não tinham muitos afazeres, eles acabavam de chegar de seus respectivos empregos, e esse era o momento de descanso tão esperado. As mães que acabaram de chegar do trabalho serviam com pressa os lanches das crianças esfomeadas que chegavam da escola. Todos estavam ansiosos para poder ficar a sós com ele, o WhatsApp. Entretanto, naquele dia aparentemente normal, aconteceu algo de muito bizarro, toda uma rotina de milhares de pessoas de um mesmo continente foi alterada por um único motivo: foi o dia em que o WhatsApp parou. Adultos, idosos, adolescentes, jovens de todas as idades e até mesmo os mortos estavam carcomidos pela ânsia de ficarem sem poder sustentar esse vício disfarçado de “app verde”.

Quando me deparei com pessoas próximas de mim com os nervos a flor da pele, os dentes rangendo e com a cor esbranquiçada, cheguei a pensar que fosse o apocalipse, e foi então que pude perceber o tamanho da catástrofe. Todos estavam enlouquecidos. O ser humano, intolerante, não aceitava que por míseros minutos aquele diabo verde parasse de funcionar. As crianças queriam atenção, elas imploravam por isso, mas os seus pais não as viam, estavam cegos, foram tomados por esse mal. Até mesmo os pássaros que tentavam se alojar em seus ninhos estavam desconfortáveis com tanta reclamação. Os amantes não conseguiam mais falar discretamente sem que fossem ouvidos pelos seus cônjuges. Os namorados que viviam distantes não podiam mais trocar juras de amor. Até mesmo aqueles que moravam na mesma casa não lembravam que poderiam conversar pessoalmente, tampouco sabiam qual o timbre da voz um do outro, eram quase que desconhecidos vivendo entre quatro paredes. Os adolescentes não conversavam mais com seus “contatinhos”. Nas redes sociais todos lamentavam. Era a notícia principal de todos os jornais. O Brasil parou. O mundo parou! Quanta empáfia desse aplicativo! Como ele pode achar que o mundo gira em torno dele? Será mesmo que a raça humana não é capaz de viver em liberdade? Será que a fome no mundo não é capaz de comover ninguém? Será que um mísero app é capaz de fazer com que o mundo pare? Por um momento eu estava sem resposta para diversas perguntas.

Por quase uma hora as pessoas ficaram libertas. O mundo voltou a brunir. Durante aqueles cinquenta longos minutos sagrados sem o WhatsApp funcionando, muitos maridos puderam olhar novamente nos olhos de suas esposas, conseguiram redescobrir qual o cheiro da pele delas e como estava o corte de cabelo de suas amadas. Alguns homens até notaram qual a cor do batom que a sua mulher usava. Muitas esposas tocaram seus maridos como nenhuma outra jamais fez. Usaram de todas as artimanhas femininas possíveis para fazer com que seu homem sentisse o ápice do prazer. Muitos pais puderam ler um livro para seus filhos, e foi possível até perguntar o que mais tinha lhes agradado no seu dia de aula. Muitos beijos aconteceram entre os namorados, porque por alguns minutos, só por alguns minutos, eles lembraram que podiam se tocar.

Inexplicavelmente, ao primeiro som de mensagem recebida, estavam todos novamente cegos e curvados diante de um aparelho celular que carrega um aplicativo que escraviza mais do que qualquer senhor. Aquele círculo verde que atrai feito imã e fica a frente da tela dos celulares voltou a funcionar. A escravidão retomou aos seus. O mundo que já estava emancipado voltou a ficar refém do WhatApp.

Por Karla Ribeiro dos Santos.

2 comentários:

  1. Olá! É uma bela crítica, os aplicativos e redes sociais viraram parte da vida dos brasileiros, estão todos muito viciados. Desta vez que o WhatsApp parou nem notei que tinha parado, fui saber só no outro dia pelos comentários de outras pessoas. É um app viciante mesmo, mas para mim já perdeu a graça, virou apenas uma ferramenta de comunicação. Abraço! ;)

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  2. Peraí que preciso respirar! Karlinha, meu amor, foi de tirar o fôlego com tamanhas verdades. Foi como um soco no estômago! Admito que não percebi que ele estava "parado", soube disso umas duas horas depois (perdi a noção do tempo lendo "As Meninas" kkkk) com várias pessoas desesperadas. É triste ver que esse app (como vários outros) realmente escravizam as pessoas.

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