quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Resenha: Quem vê cara não vê ansiedade - Leca Haine


Sinopse: Esta é uma história de ficção baseada em fatos reais. Fala da angústia vivida por mais de 9% dos brasileiros (cerca de 18,6 milhões de pessoas) que sofrem com transtornos de ansiedade (segundo dados da ONU) e que muitas vezes são tidos como irresponsáveis ou vagabundos. Algumas dessas pessoas foram representadas por meio de situações vividas pelas personagens deste livro. Tudo o que foi aqui relatado faz parte de experiências captadas junto a equipes que atuam na redução de danos hospitais e clínicas psiquiátricas, além de consultórios de psicologia que tive oportunidade de conhecer, ora trabalhando na área da Comunicação de Saúde, ora como mera observadora e/ou paciente em terapia.



Leca Haine me presenteou, mais uma vez, com um livro maravilhoso! Quem vê cara não vê ansiedade é diferente de A Torre e dos livros fantásticos da série Lua Azul. Desta vez, a Leca escreveu sobre um transtorno bastante conhecido e que afeta muita gente, mas que muitas vezes não é levado a sério: a ansiedade.

“A grande maioria das pessoas é ansiosa. Eu sou ansiosa, minhas amigas, todas elas também são. Mas nunca pensei na ansiedade como uma coisa tão forte a ponto de não deixar a gente viver normalmente.” (p. 126)

Em Quem vê cara não vê ansiedade nós acompanhamos um recorte da vida de uma família que está passando por problemas. O filho é um jovem que não vê mais sentido na vida, então começa a beber e a utilizar vários tipos de drogas para esquecer de si mesmo. Como consequência disso, ele vem passando a maior parte do tempo nas ruas, como um "mendigo". 

A partir deste problema, temos uma série de depoimentos em primeira pessoa de cada um dos envolvido no caso, inclusive do filho. Cada capítulo do livro é destinado às impressões da mãe, do pai e da avó, diante da situação em que o filho se encontra. É como se cada uma dessas pessoas possuíssem um diário. É assim que o leitor acompanha o decorrer dos acontecimentos a partir do problema em que o filho se encontra.

Depois de muitos acontecimentos e dificuldades, o filho é diagnosticado, primeiramente, com esquizofrenia. Ele passa um tempo numa clínica e volta para a casa, mas tem uma recaída e volta para as ruas. É depois dessa recaída e de quase morrer, que os médicos fazem o diagnóstico que mais se aproxima do correto, o problema do filho é, na verdade, o transtorno de ansiedade generalizada.

“A sociedade é assim. A gente vê aquilo que quer ver e deixa de lado o que não quer.” (p. 123)

Este é um ótimo livro. Sério! Eu imaginava que se aproximaria muito do gênero autoajuda, mas me enganei, Quem vê cara não vê ansiedade é uma ficção cheia de reflexões. Conseguimos acompanhar o ponto de vista de cada membro da família envolvido, e é impressionante como a gente têm impressões sobre um mesmo assunto tão diferentes das outras pessoas, por exemplo, o filho passa uns tempos nas ruas e acha que a mãe está agradecendo por isso, afinal, ele só dá trabalho. Mas, na verdade, a mãe está arrasada e preocupada, ela faz até mesmo promessas a Deus para ter seu filho de volta. É comum que pessoas com ansiedade se sintam estorvos na vida de outras pessoas, e isso se reflete perfeitamente nos depoimentos dados pelo filho.

“O ruim de ser como eu sou é que eu nunca acho que sou bom o suficiente para as outras pessoas. Explico: sempre acho que estão me julgando, e isso começou desde quando eu era pirralho.” (p. 92)

Durante a leitura, acompanhamos a mãe tentando dar uma razão para seu filho estar do jeito que está. Ela tem milhares de ideias, aponta uma série de fatos, mas em momento algum, pensa que o problema dele seja a ansiedade. E como isso é comum! As pessoas costumam desdenhar a ansiedade, costumam julgá-la, classificá-la como drama, manha, infantilidade. Muitas pessoas não enxergam o grande problema que a ansiedade, se não for tratada, pode gerar. A ansiedade é um transtorno silencioso, que engana facilmente, pois, de fato, quem vê cara, não vê ansiedade. A autora foi mestre em fazer-nos refletir sobre como a ansiedade afeta vidas, como as doenças psicológicas são tão sérias e merecem tanta atenção quanto as doenças físicas. 

“É preciso que as pessoas se mobilizem, façam passeatas, chamem a imprensa, coloquem a doença menta no mesmo patamar das doenças físicas.” (p. 105)

Não posso deixar de mencionar um fato que chamou profundamente a minha atenção. A mãe enfrentou todo o problema do filho, praticamente sozinha. A mãe, a mulher. Foi ela quem passou noites em claro, mas continuou trabalhando para se sustentar. Foi ela que tirou forças não sei de onde para procurar pelo filho, para fazê-lo aceitar um tratamento, para, simplesmente, ter esperança. Essa mãe merece muitas palmas. 


A escrita da Leca Haine, mais uma vez, é convidativa e confortável. Você pode ficar sentado por horas lendo, que não vai se cansar. Novamente, Leca escreveu um livro incrível, que pode ajudar muitas pessoas a mudarem de olhar quando o assunto for ansiedade. Precisamos ser mais sensíveis, afinal, não é somente quando se jorra sangue do corpo que sentimos dor. Há dores silenciosas, e elas podem ser muito piores que as barulhentas.


Referência: HAINE, Leca. Quem vê cara não vê ansiedade. Brasília: Editora Lua Azul, 2017.


8 comentários:

  1. Olá, tudo bom?
    Não conhecia esse livro. Achei super interessante a mensagem que ele aborda. Ansiedade é um dos males do século, portanto, precisa ser discutido até que isso pare de ser um tabu.
    Beijos
    5 O'clock Tea

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    1. Oi!
      Concordo com você, Mi. E fico feliz em saber que gostou da proposta do livro.
      Beijos

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  2. Oi, Thami!
    É bom saber que a autora se aventura em outros gêneros.
    Também achei que seria um livro de autoajuda por causa do título e eu já estava torcendo o nariz hahahha
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe do sorteio de aniversário do Balaio de Babados e O que tem na nossa estante

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    1. Oi, Lu!
      A Leca é maravilhosa, se sai bem em tudo, é incrível!
      Beijocas

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  3. Olá! Acredito que o livro passe uma importante mensagem.
    Gostei bastante da sua resenha e vou anotar a indicação.
    bjo

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  4. Resenha maravilhosa, "Quem vê cara não vê ansiedade" já está na fila para as próximas leituras deste ano. Algo que gosto muito na Leca é que ela consegue falar tanto de problemas sociais como de literatura fantástica de uma forma única e que nos prende de uma forma maravilhosa.

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    1. Exatamente, Ana! Você irá adorar os livros dela, tenho certeza! ♥

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